"Pimenta: 3.Fig. Mulher irrequieta, ardente, viva"
3 de abril de 2010
Polyanne Rodrigues
Que farei eu, se arde minha pele à cobiça do teu corpo?
O desejo lascivo de ti, desperto há pouco em seu leito punge-me como um espinho na carne, uma farpa afiada antre a carne e a unha.
O caso é que agora, tomada de tão espantoso sentimento, não posso estar longe de ti. Por longo espaço esperei-te e, agora que te fazes presente, só junto de ti vivo, penso, aprendo, sou mulher.
Eu, que sempre me julguei superior a tantos tipos, subjulgo-me agora, ante ti. A senhora se faz escrava. E está presa. Está aniquilada.
Com modos bruscos, tu, venerado mancebo, por vezes me trata. Por outras vezes, porém, estou certa de que a estima é recíproca, que é também por ti cultivada. "Terás fino trato", assim te
promete, tua simples criada.
Tudo de ti, em mim está gravado de forma indelével. A convicção com que falas e gesticulas sob sua impecável erudição, a graça com que me ri. Suas frases silenciosas, seus olhares indecifráveis, perdidos em pensamentos impenetráveis. E se algo desperta minha ira - como quando te sentas junto à mesa, e quebras em um cinzeiro a cinza de mais um cigarro, tragando, cheio de si, fumaça sobre fumaça - a paixão desvairada habilmente a faz cair por terra.
Após todas estas coisas, quando as circunstâncias obrigam-me a dizer-te adeus, sinto fazer-se em torno de mim um vácuo imenso, certa muito embora de que a ausência tua é só até o raiar de um novo dia, não fica em paz e nem tem alegria, a minha alma que só por ti vigia.
De modo que, a mais vaga idéia de uma iminente ausência, e mesmo de uma ausência tardia, tortura-me impiedosamente. E, se nada mais posso fazer para remediar tão revoltosa situação, troco passos com a solidão. Sujeito-me. Em momentos procuro ler, mas debalde. Tua imagem interpoe-se entre mim e o impresso. A que se deve tudo isso?
Questiono-me.
Tudo me conduz à crença nesse tempero raro, de quem tu és o criador. E se (tão somente se!), toda essa loucura não for apenas produto de minha mente fantasiosa, não há o que o nomeie. A pimenta, ao meu ver, o representa. Dosador sábio como és, manuseia seu poder com excelência. Contudo, creio eu, que o usastes comigo com completa displicência! Não só me temperaste
deliciosamente, como me envenenaste, irremediavelmente! Peço-te somente que embriagues-me o suficiente para me manter viva. E assim, de bom grado, pra sempre de ti
serei cativa.

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