seo guilherme
O meu vizinho, Seo Gilherme, morreu hoje. Quer dizer... Foi enterrado. Ele já tinha morrido há muito, desde que deixou de produzir. Aí é que está o que se considera morte no homem, a improdutividade. Mas, agora foi oficializado. Foi falência, ou seja: faliu. Todos os seus órgãos deixaram de funcionar, um após outro. E ele morreu.
Já não gozava o doce da vida. Talvez porque tinha diabetes e não podia com doce. Veja: o doce lhe era prejudicial! A gente, quando não prova mais do doce da vida, vai ficando doente, meio-amargo. Diz que ele tava chato mesmo, xingando todo mundo. Um marrento. Mas que sofria. Tinha muitas dores, uma pior que a outra. A morte lhe veio para recompensar as dores e todas as noites mal-dormidas.
Antes seu coração estava inchado, parecia até que estava lhe apertando os pulmões. Sim, também não respirava direito, além disso, fumava. Aprendeu a fumar quando era novo e fumou enquanto teve vida. Mas o que o levou ao hospital foi um febrão, acharam até que era dengue. Não era. Depois de uma semana despediu-se do corpo numa maca de UTI. Falência múltipla dos órgãos.
Diz que quando chegou em São Paulo muitas mulheres lhe passaram pela mão até conhecer Dona Fátima, que ainda era senhorita. Teve quatro filhos, cinco netos, uma casa e um velório modesto. Foi eletricista e prosador, mas nos dias derradeiros não saía de casa.
Quando eu nasci, ele já morava aqui e já estava aposentado por causa da trombose. A Dona Fátima, não, tem setenta e tantos anos e ainda trabalha. Pois é... Desde que eu me lembro eles são velhos. Do lado de cá do muro escutava os dois brigando. A Do-na Fátima dizia assim: “Tuas cuéca que apodreça! Esse negóço num me serve de nada, mesmo!”. Atardinha, eu chegava da escola e ele estava no portão, esperando a Dona Fátima. Daí eu puxava com ele um dedinho de prosa.
Dona Fátima está inconsolável. Coloquei aqui em casa aquela música do Vininha, pra ver se... Sei lá... Dava uma animada... Gerasse uma reflexão: “Pra que chorar/ Se o sol já vai raiar/ Se o dia vai amanhecer?/ Pra que sofrer/ Se a lua vai nascer?/ É só o sol se pôr/ Pra que chorar/ Se existe amor?/ A questão é só de dar/ A questão é só de dor”. Mas não adiantou nada...
Seo Guilherme, não te vi para dizer, mas mesmo assim: Bom descanso.
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