o homem sem orelhas
O homem sem orelhas, assim ele era conhecido na comunidade. Um homem alto, tronco exuberante, pernas de jogador de futebol e com abdômen de fazer inveja a qualquer jovem. A perda de suas orelhas teve início na adolescência, e sempre ocorria nos momentos mais turbulentos desta sua fase tão cheia de reconstruções, e sempre após o banho na frente do espelho. Era uma perda transitória e de curta duração, aproximadamente um minuto.
Uma amiga minha me apresentou ao homem sem orelhas. Foi uma paixão arrebatadora que nos levou ao altar. E lá foi estabelecida nossa primeira aliança oficial.
No início do nosso casamento fui regada com amor.
Um amor expresso por meio de flores. Flores colhidas na estrada de terra, cercada por resquício de uma mata atlântica, pelos seus olhos atentos ao belo, em parceria com suas mãos. Delas surgia um buquê. De sua boca emoldurada por um sorriso , surgia um beijo. E de seus braços, proteção. Era assim que ele chegava em casa, após horas e horas de trabalho
O prato principal, ele preparava em quinze minutos . Colocava no forno de um fogão industrial e depois tomava um banho de banheira Luiz XV.
No jantar compartilhávamos nossos sorrisos e o nosso cotidiano.
No frio, o fogo da lareira aquecia nossos corpos e relaxava nossas mentes.
Muitas vezes assistíamos o espetáculo das estrelas que se destacava naquele lugar distante de tudo.
Durante a semana, chegava cedo do trabalho, e íamos ao topo da montanha. Lá eu degustei os primeiros morangos silvestres rubros e saborosos. Lá toda nossa agitação interna, ia se pondo com o mesmo ritmo do entardecer. Lá nossos sonhos de viagem eram compartilhados.
Depois de três meses, seu comportamento virou ao avesso. Uma mudança que me deixou com sede de amor. Flores, beijos e abraços foram trocados por gestos rudes. Tudo era motivo para aflorar sua irritabilidade. Eu fui me definhando como uma fruta verde prestes a cair do pé antes mesmo de atingir sua maturidade. Me coloquei no papel de vítima, o que fez emergir apenas reações, eu não consegui agir para reconstrução e amadurecimento do nosso relacionamento. Revelava meus sentimentos diante das cenas que estávamos vivendo, para que pudéssemos resgatar nosso amor. Porém, eu me sentia como que em areia movediça, cada movimento meu, mais nosso amor ia se afundando e se decompondo.
Coloquei-me em uma camisa de força e hibernei minhas palavras amorosas. Assim, abraços e ternura foram soterrados paulatinamente. Um dia estávamos em um bistrô para degustar alguns petiscos, para variar ele só tinha olhos e o toque de suas mãos para o celular. Então peguei um livro de poesia que estava ali . Um lugar com mesas e cadeiras de tamanhos e desenhos diferentes, de madeira maciça, aconchegantes pelo toque de uma flor e almofadas macias. Espelho do século XV., geladeira vermelha envelopada, um balcão com algumas antiguidades como um telefone e uma registradora. Um lustre de pingente e outros com tecido vermelho. Quando houve uma brecha, ou seja, quando ele se desconectou da internet, questionei: Posso ler uma poesia para você?
- Sim pode.
. Na terceira palavra da frase do poema, ele abruptamente se levantou sem nada dizer e nem um olhar ou algum gesto que indicasse necessidade de pausa. Atônita diante daquele jeito de se comunicar, senti uma dor que nunca antes havia sentido, uma dor pulsante no centro de minha alma. Pulsante mesmo diante de qualquer adversidade, até alcançar seu limite, o que me causou uma sensação de iminente implosão.
Várias vezes não soube ouvir minha dor expressa em meus olhos lacrimosos e na minha voz colada na garganta. Ou quando ouvia minhas palavras, não ouvia o meu desejo de um abraço, um conforto. Ele acha que tudo isso são bobagens e ou atitudes carentes. Por outro lado, ele tinha prazer quando lhe fazia um cafuné, tinha prazer quando eu lhe fazia massagem em suas panturrilhas ou quando eu colocava meias em seus pés.
Incoerente em suas discussões ou concepções; é repreensível eu não dominar a culinária básica, agora ele tem o direito de não saber e ou demonstrar desinteresse pelas coisas que para ele são como vácuo. Em suas conversas pairava sempre uma interrogação estampada na face do outro ao questionar as mesmas coisas várias vezes já respondidas ou ao deixar a fala do outro suspensa no ar. Pensei até que estivesse apresentando um distúrbio na memória. Fiquei tranquila quando ele me disse que, ao ouvir as pessoas "tem luz acesa mas ninguém em casa”. Inflexível em seus conceitos, dava crédito a uma única verdade, a sua, simplesmente por que não conseguia ouvir e refletir sobre a verdade na ótica de outra pessoa.
E foi no ápice dos nossos desencontros que ouço um grito. Um grito estilo Munch de tanta dor e desespero. Da porta entreaberta do banheiro, seu corpo curvado sobre a pia de mármore e seu choro refletiram uma humanidade nunca vista até então por mim. Aos poucos, fui me aproximando daquele homem prostrado sobre sua própria dor . E sobre meus braços, ele se recolheu e assim ficamos feito uma imagem de Pietá. E quando seu medo foi dissolvido pelos seus gritos e lágrimas, olhou para mim e me abraçou como há muito tempo não o fazia. Estava sem orelhas, e desde então é assim que ele se relaciona com o mundo.
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