co'as perna dormente

Foi percebendo, aos poucos, que a perna às vezes ficava “mei esquecida”, por isso que estava manco o meu pai, Severino. E quando foi no médico, o dotor: “o senhô fuma?” e ele: “não.”, “o senhô bebi?” ele: “não.”, “o senhô já usou droga?” ele: “não, dotor, eu sô evangélico!”. Disse que foi mesmo um dispautério o doutor fazer aquelas pergunta, que “só podia ser baeano!”. Acredita?! Mas que sua preocupação de explicar o que sentia foi desnecessária, pois o médico lhe fizera pouquíssimas perguntas, quase não trocaram palavra, aliás, mau lhe olhou a cara. Que como sempre não lhe tocou, nem pediu exames... Que adiantou em nada, “Por isso qu’eu não gosto de ir no médico!”. 

Seo Severino, nascido nas Alagoas, criado em Arapiraca, mas, desde o ginásio, vivido São Paulo. Se na infância comia do quê apanhava na roça, na praça – da Sé – sua juventude foi correr para não apanhar, e ter o que comer. Hoje hipertenso e varizento, nem trabalha nem aposenta. Seo Severino, que mais severino não haveria de ser.

O engraçado do pai é que, quando se arreta, mete qualquer adjetivo no sujeito do seu discurso. Quando digo qualquer adjetivo é qualquer um que lhe venha ao quengo, foi como quando disse: “é um jumento o médico! Sisudo, cosmopolita do cão!”. Cosmopolita?!  Quando soltou essa, os irmãos começaram a rir. Na ocasião, os irmãos da igreja estavam ali para orar pela perna do pai.Tem outra coisa engraçada dele também: desde que me compreendo por gente, que em momentos aparentemente inoportunos, quando está abstraído ao léu,  o no foco dum ofício  – como amolar uma faca, por exemplo – ele se embala numa mesma musiquinha: “Pára Pedro/ Pedro pára/ Pára Pedro/ Pedro pára”...

“E quando o otro – médico – me disse: “É, seo Severino, parece que o senhor vai ter que amputar a perna”... Ó, p’cê vê! Se a gente vai por um médico desse, a gente tá é danado. Uma hora dessas era pr’eu tá sem a perna. Magina! Só de passa um álcool eu já sinto aquela miorada...  Agora o otro queria corta meu pé! Ah, essa é boa!”. E ele deu de achar que o álcool vai lhe curar a dormência na perna. Tudo bem se sua fé estiver no álcool, desde que tenha fé... O causo é que já lhe haviam ensinado fazer escalda-pé com ervas, deixar os pés pra cima, tomar uns comprimidos oleosos... E nada. Mas ali estavam, para orar pela perna do meu pai. Na esperança que Cristo dê jeito!

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