caso de amor n° 243

“Nada do que você vê é só seu, filho. O que é só seu é o que você sente. Tudo o que você vê não pertence exclusivamente a você, pertence também ao outros e por isso é que você tem que aprender cuidar e compartilhar. Isso é a responsabilidade”. Isso quem me disse foi meu pai. Eu devia ter uns nove ou oito anos de idade, a coisa do causo era um balanço, mas podia ser qualquer coisa. Ele tem razão. Desde então não me apego, nem mesmo às mulheres, o que não significa que eu não as amo, muito pelo contrário aprecio o amor em silêncio, o que me dá o poder de amar impunemente. 

Não consegui evitar... Ela entrou no vagão pouco antes de fechar as portas. Não usava aliança. Uns penduricalhos lhe ornavam, todos em sementes. E eu amei-a subitamente naquele instante e ela não soube. Sentia seus suspiros profundos. Era difícil sentir seu perfume doce de relva sob o sereno da manhã de primavera e nada poder fazer... Apenes me contentar em fechar os olha para degustá-lo, bem como àquele instante efêmero que passou fugaz quando ela saltou duas estações seguintes. 

Porque nem os instantes são meus, pois viram lembranças e estas sim são minhas... Aliás, é incerto. Meu avô, José de Almeida – que Deus o tenha em bom lugar! – partiu com alzheimer, esqueceu-se de muita coisa do que fez de ruim e de bom em sua vida. E partiu sem posse alguma. Talvez a dor. Portanto possuo o que consigo manter nos arquivos da memória e, o que é mais importante, o que sinto. Quanto ao que sei – é certo que sei? Não sei – essa coisa da sabedoria deve estar relacionada à práxis, por que nenhum conhecimento faz sentido se não for exercido. Mas possuir, possuir mesmo, no sentido concreto do verbo, possuo nem o nada.

Qual seria o nome dela? Seria do trabalho, da universidade ou da vida o seu cansaço. Como eram belos seus lábios. Como era simétrico seu cabelo chanel! Sei que o mundo sangra lá fora, mas tudo ficaria bem se sentisse, nem que fosse uma vez, as carícias de sua língua, o sabor do seu beijo. Pelo menos por hoje sua lembrança será toda minha.

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