A Miraculosa Estória de Carolina & Zé Vicente
Começo melhor não há
Senão gradecendo a deus
E ao seu filho: o cordeiro
Porque foi quem nos valeu
Também a nossa senhora
Padroeira do Brasil
Inda mais eu que sou moço
Dos mestres, a permissão
Eu houvera de pedir
A benção Mestre Azulão
Zé da Luz, Cego Andarilho
Cantadores do Sertão
A benção Seo Paulo Barja
E Dotora Mergulhão
Leandro Gomes de Barros
Que é nosso campeão
Valdeck de Garanhuns
Agrestino de plantão
A benção Mané Monteiro
Francisco Borges, o Zé
E Pedro Paulo Paulino
Cantador do Canindé
A benção, Ferreira Lima e
Patativa do Assaré
A benção Seo Zé Limeira
Otaciano Batista
E Pinto do Monteiro
Dentre tantos nessa lista
Que são em nossa cultura
Grandes mestres repentistas
Se já bem principiado
Bendito e orientado
agora lhes conto um fato
Dum caso assucedido
Assucedido num dado
Num dado tempo passado
Mas antes vos esclareço
Não foi minha invenção
Disseram inda essas palavras
Numa outra ocasião
Que aos pés do Padim Ciço
Foi que deu-se a danação
Foi onde dois nordestinos
Assenderam sua paixão
Na labuta e na miséria
De ambas putrefação
Carolina e Zé Vicente
Filhos do mesmo torrão
Carolina e Zé Vicente
Foi mote a muito repente
Cantado pelo sertão
Mais um duo de embolada
duas figura encantada
Mais um casal de cristãos
Duas quimeras urbanas
As duas bestas fubanas
Aliciadas do cão
Dois heróis desterrados
Unidos pelo calvário
Duma peregrinação
Carolina agrestina
Filha do céu e do chão
Criada nas madrugadas
A base de couro e pão
Tinha apenas dois pecados
A fome a e a feição
Vicente cabra da peste
Não era senão um Zé
Um órfão, um desvalido
Porém rei do catolé
Mentiras em prosa e verso
Vendia pra dá com pé
Não duvida o valente
Não duvida home decente
Muito menos quem é de bem
Do Cariri ao Iapoque e
Nas banda do sol nascente
Eles cantaro tombém
Egito, Gana, Sudão
Já Cantaro em Nova Iorque
Aparecida do Norte
Atenas, Pérsia, Itália
Islândia, Suécia, Somália
Cântaro o mundo de então
Um dia ouvi um contá:
“esses dois sugismundos
Já foram vistos cantando
Em mesma hora marcando
Porém em outro lugar”
Menino,vê se eu posso!?
Não é de se admirá?!”
Como é que eu poderia
Não fazer em rezistrar
Que essa duas caiporas
Naquele tempo de outrora
Zombavam do seu penar
Sem morada ou paradero
Cantar só não era sua sorte
Em Juazero do Norte
Ai tristeza, que me deu
Que esse dois padecero
Nas mãos desses fariseu
Como moravam na rua
Na vida não tinham nada
Que é uma forma ingrata
De sê herdeiros do tudo
Comiam do que encontravam
Que fosse limpo e enxuto
Todos dois andavam bebos
E não era coisa pouca
Fediam a óleo diesel
Cuspiam fogo da boca
Sob o governo santo
as pernas babeavam loucas
Bebiam d’água lodosa
Gasolina, aguardente
Miúdo, farofa e inseto
Rato, cotia, serpente
Aquilo que não matassem
Lhes serviam de banquete
Carolina e Zé Vicente
Foi mote a muito repente
Cantado pelo sertão
Dois cabocos nordestinos
Ou dois heróis paladinos
Sem espada e anelão
Eram dois trovadores
Faziam o fuzuê
Cantavam para comer
cantavam sem ter porquê
que quem não canta na vida
vevi a vida a sofrê
No desafii malcriado
É fei cantador perde
Só canta quem é valente
Quem não tem jabaculê
Canta o desafiado
Pra feri e ofendê
Como agrada o mal feito
Gente pagava pra vê
Dois pobres aporcalhados
Fazendo a coisa féuvê
Mangando a miséra alheia
Gozando seu padecê
Depois que desencarnaro
Conservaro aparecê
Aí que mora o macabro
O lado malassombrado
Dessa comédia dos diabo
Que versejo a vosmecê
Quando ainda era pequeno
Mãinha fazia surrá
Quem dissesse esses nomes
Apanhava e ia rezá
“Esses dois giramundos
Tem parte com coisa má”
O Home cresce e descobre:
crendice e ignorânça
Dá em tudo que é lugar
Mãinha que era inocente
Uma rosa penitente
Sem saber o que é cantar
E como nós procuramos
A boa fé cultivar
Convivi eu na infância
Com o severo zelar
De ter na mão uma paia
Caso os dois eu encontra
E ter o terço por perto
Pra mó de sempre rezá
Não deixá os litro aberto
Nas noite de arraia
Somente pra esses dois
Não virem atazana
Mas eu nunca imaginava
Que o dia ia chegar
Em que eu veria os dois
Tal quá ouvia conta
Vi com esse zói vesgo
Que a terra há de tragar
Vinha eu vindo numa estrada
Muito alegre e prazenteiro
Dei com esses dois no mato
Me tremeu o corpo inteiro
Me pediram um agrado
Meu irmão, fiquei cabreiro
Ali mesmo eles cantaro
Se riro e se embebedaro
Brigaro e fumaro inté
Cuspiro e ruminaro
Os vrido eles quebraro
barrero os caco co pé
Carolina e Zé Vicente
Foi mote a muito repente
Cantado pelo sertão
Andantes desencarnados
Contritos, espaventados
Muito além da lacração
Se um dia tu topares
Co’ esses dois numa bocada
Praça, bec’, encruzilhada
Dê-lhes pinga, fumo ou paia
Um cobre, uma moeda
qualquer coisa que agrada
Porque diz que são tinhoso
Que dá um azar do cão
Ouvi uma cantoria
E não tê nada na mão
E se tivê e num dé
É mil’anos sem perdão
Adianto ao leitor amigo
Que esse dois encontra
Essas duas criatura
Nunca vão lhe faze má
Que tão mais pra duas flores
No jardim de Jeová
Se por um lado é triste
A argrura desse casá
Por outro é uma farra
Um eterno festivá
Goza dos vícios da carne
Em matéria celestiá
Por isso na minha terra
Há um ditado pungente
Que o home que vem ao mundo
Cantador e indigente
Não carrega outro sprito
Senão o de Zé Vicente
E a mulher que é retada
Corajosa e masculina
Dizemos que ela tem
Sprito de Carolina
Por ter um leão no peito
E a cantoria como sina
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