não estava mais na figura que ostentava
não estava mais por detrás de seus textos
não estava mais na inercia de seus objetos
não estava no cheiro amargo de seus livros
não estava no ócio, não estava em seu ofício
não estava nas cores nem na melodia
não estava no cigarro, no álcool nem na fotografia capturada num momento superficialmente feliz
num baú, com tanto esmero: cartas
papeis de bala
mulheres
segredos
...
nada mais era seu
não mais
não estava nas conversas com Seo Manoel
não estava mais nos abraços de sua mãezinha carente
não estava escondido no guarda-roupas - até mesmo porque ele já era bem grandinho
nos sapatos e nas roupas, não estava
no dia e na noite, não estava
entre os amigos, não estava
ele havia sumido
"mas... como?!"
ninguém sabe dizer
talvez tenha sido tão lentamente
... assim mesmo: como a fumaça...
que ninguém percebeu
da última vez que o vi - lembro-me como se fosso hoje - foi de relance, na vitrine duma livraria na Doze de outubro
ele me pareceu tão comum, tão cotidianamente comum...
quando percebi que era ele, ele já estava muito longe e eu não quis voltar
hoje o procurei
talvez esse seja o motivo d'eu estar escrevendo isto
procureio incessantemente
mas parece que tudo dele está tão distante... até mesmo suas lembranças
e eu já nem sei se ele existiu

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