cântico de paz

Beiro um quarto de século e não arrumei mulher, não fiz patrimônio, não frequentei a academia, não prestei o vestibular, não me filiei a partido algum, se quer tirei minha carteira de motorista. A nada me dedique a não ser às práticas diárias. 

Ser um observador das coisas cansa a alma e me faz velho. Passo o tempo me retalhando para costurar mais tarde... Assim transcrevo minhas horas neste diário. Mas ainda, na transcendência, sonho ser um astronauta a vadiar no cosmo... É que a realidade e tão dura, tão concreta... Que nos consome. 

Meu país é tão sofrido, tão maltratado... Política é o meio de se compartilhar, ou seja, tudo o que é compartilhado envolve uma política. Minha gente não vê assim... Às vezes penso que a única solução é a revolta armada. Às vezes penso em ser presidente e dar um bom jeito em meu país. Meu discurso seria assim, como a voz dum profeta: 
O espírito de Deus passou pelo meu espírito e me disse: – Vai e faz ressoar nos ouvidos das multidões palavras de terror e de verdade! E eu obedeci ao meu Deus.
Povo! O Anjo exterminador vibra sobre ti a espada da assolação, mas breve soará tua hora extrema, tu mesmo a marcaste no decorrer dos tempos. Esta terra que pisas é um solo lavrado por tuas mãos, repara, porém, que é também o sepulcro dos que folgam ébrios de tuas esperanças. Amplo é o sepulcro destes que dentro em breve aqui calarão para sempre.
Povo! Crês-te forte porque teu rugido é semelhante ao da pantera. Arromba as portas e derruba os altares dos templos! Deus já não recebe os sacrifícios e as preces dessa gente senão como um grito de escárnio. E como o vento noroeste varre as folhas secas do outono, o teu sopro varrerá da face da terra essa raça putrefeita.
E o povo ouviria, minha voz e no alvorecer tudo seria diferente.


  

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